Todo dia 2 de fevereiro, enquanto alguns lembram de N S dos Navegantes e outros de Iemanjá, eu lembro que é dia da Marmota – uma das coisas que aprendi no cinema, com o inesquecível Groundhog day (Feitiço do tempo).
Talvez não seja para tanto, mas desconfio que o dia 15 de julho [*] vai passar a ter seu significado depois que a diretora Lone Schefrig mostrou 20 dias 15 de julho seguidos em seu intrigante One day (Um dia). Lone é a dinamarquesa que dirigiu, nos bons tempos do dogma, Italiensk for begyndere (Italiano para principiantes), e mais recentemente An education (Educação) que já comentei aqui. Não ia deixar passar um novo filme dela sem dar um pulo no cinema.
Jim Sturgess faz o inconstante e imaturo Dexter enquanto Anne Hathaway interpreta a (meio) tímida Emma. Já no começo do filme, Dexter explica a Emma que dia 15 de julho é dia de São Swithin – tanto ele quanto ela disfarçando o fato embaraçoso de que sabiam de cor o poema que resume a tradição do santo que faz chover:
St. Swithin’s day if thou dost rain
For forty days it will remain
St. Swithin’s day if thou be fair
For forty days ’twill rain nae mair.
O filme conta a estória de dois jovens que evidentemente se querem, e teria tudo para cair no esquemão da comédia romântica. A ideia de mostrar um dia na vida dos protagonistas e dar um feed forward para o ano seguinte funciona muito bem ao nos poupar de detalhes – e assim vemos as metamorfoses de Anne Hathaway, aqui feiosa e nerd, ali sensual e gamine.

Emma e Dexter (Buzznet)
Lá pelas tantas você vai achar que, afinal, é uma comédia romântica mesmo. Mas a turma que estava suspirando e torcendo para que Emma botasse véu e grinalda acabou engolindo em seco ao ver que não se trata de uma estória de amor banal.
As locações são um destaque do filme. Tomadas deslumbrantes de Edinburgo e de Paris – não a turística da torre Eifel mas sim a idílica do canal St Martin.
[*] no post original escrevi 15 de junho, mas uma boa alma me avisou. Acabei confundindo com os outros santos que compartilham a mesma lenda [**] tais como S. Gervásio, S. Protásio e S. Médard, estes sim festejados em junho.
[**] não estranhe a lenda ser igual para tantos santos – afinal não se trata de milagre e sim de um fenômeno meteorológico bem conhecido.


Faz um tempinho que estou namorando o cartaz desse filme que achei esteticamente belo e triste. A imagem ligada ao título “One day” parece remeter ao passado dizendo que agora são apenas lembranças.
E sempre se acaba aprendendo algo nos filmes. Essa de santo que faz chover não conhecia…
Ainda não consegui assistir ao último do criador da chancela DOGMA. E não sabia que a direção de UM DIA era de uma dinamarquesa… parece que alguma coisa do conjunto de regras permanece ao menos é a impressão que me passa.
Esse seu texto está ótimo, parabéns! É um convite irresistível.
O cartaz é excelente. Nas cores, na imagem.
Eu comprei o Livro achando que daria tempo de ler antes do filme estreiar. Assim eu comentaria sobre os dois. Mas outros compromissos fizeram com que eu começasse a leitura essa semana.
É um tanto arriscado traçar um perfil dos dois ainda no início, mas vou arriscar
Dexter seria a Razão e Emma a Emoção. Ambos tentando, mesmo que inconscientemente, esse outro lado em si.
Até onde parei, Dexter é apaixonante. Mesmo gostando de tudo que uma carreira promissora lhe daria, queria ser um Fotógrafo. Ele até já solta esse desejo antes de uma “conversa séria” com a mãe. A “convocação” partiu dela. Já que esse (The) Graduete aqui já está há dois anos num refresco após estudos.
Já Emma tenta dar praticidade aos ideais “cara pintada”. Afinal, ser independente tem também um custo financeiro.
Ainda dentro de uma leitura inicial… Eu diria que o romance, ou dos dois conviverem juntos, não aconteceu porque para ele, ela não se encaixava na vida dele. Seria unir um ser metódico a uma porraloka. Por ela, o romance teria começado no dia seguinte.
Até agora estou gostando do Livro. E por conta disso, me forçando a ir ver o filme antes mesmo de terminar a leitura. Pois parece que deram mais destaque a Emma no filme. Não quero não gostar do filme.
Pelo visto quem diz que o filme não tem a ver com o livro está cheio de razão. Dexter metódico e Emma porraloka????
Sim, no início do livro ela aparenta ser bem louquinha. O que contribuiu no afastamento do Dexter. O metódico dele, sobressaiu justamente por ele pesar muito o em torno dela.
Avançando mais na leitura… A vejo que no fundo ela é provinciana. Claro que a favor dela pesa o fato de ser mulher e de não ter a grana do Dexter. Ele pode se dar o luxo de uma viagem pelo mundo por 2 anos. Por esse início, acho que ela queria o casar com ele, ser uma dona de casa que nas horas vagas escreveria poesias.
Mas para mim, até agora, o grande barato do Livro está em mostrar o após o Diploma. A importância dele, se para o jovem, ou os pais. Uma especialização. Uma carreira. Seguir atrás de um sonho profissional, ou se dar conta de que não anseia mais…
Há um trecho onde Dexter reconhece que ele não tem o QI da Emma. Mas em compensação ele consegue se sair melhor do que ela por usar suas outras qualidades.
É bem legal ver todo esse lance. Primeiro, por ser conflitos, dúvidas, escolhas pessoais comuns a todos os jovens. Segundo, e até por isso, em saber de dois exemplos ingleses. Frente a uma realidade daqui, e até dos esteriótipos nos filmes de Hollywood.
Continuo gostando do livro
Agora, como eu ainda não vi o filme, nem li o livro todo… Eu não entendo o porque dessa diferença tão grande entre Livro e Filme que alegam os que conheceram as duas obras se quem assina o Roteiro do Filme é o autor do Livro.
E se quiser, depois eu posso te emprestar o Livro.
Não tinha me dado conta, mas o roteirista David Nicholls é o mesmo de “and when did you las see your father?”, um relato dolorido de uma péssima relação pai-filho.