A metralhadora revolucionou a arte da carnificina ao eliminar a necessidade da pontaria. O princípio da metralhadora foi tomado de empréstimo pelo numeroso grupo de roteiristas (quatro ao todo!) do filme Friends with benefits (Amizade colorida). Os personagens passam o filme disparando falas com níveis variados de humor, numa barragem de fogo que tem o efeito dá metralhadora: algumas boas piadas acertam o alvo, mas o barulho é de deixar tonto.
Em várias cenas de Friends with benefits os personagens principais ficam satirizando as comédias românticas que assistem – pena que o filme se encaixa perfeitamente na categoria, até o final bem roliudiano.
Mas não saí do cinema com raiva. Pelo contrário. O diretor Will Gluck acertou na escolha do elenco, especialmente nos coadjuvantes: Woody Harrelson, Patricia Clarkson e Richard Jenkins [*] estão perfeitos nos seus papéis, dando credibilidade a personagens que, pelo roteiro, seriam caricatos. Richard Jenkins, em especial, consegue dar a seu personagem o ritmo necessário para que suas falasfiquem engraçadas, mas passa uma imagem muito forte da dificuldade em aceitar a chegada do mal de Alzheimer. As melhores cenas acabam envolvendo o editor de esportes Tommy (Harrelson).
Friends with benefits conta a estória de Dylan, um californiano que vai a Nova Iorque e conhece Jamie. Ficam amigos, decidem ter uma amizade colorida e com isso desencadeiam uma torrente de visões preconceituosas sobre relação, sobre Nova Iorque, sobre Los Angeles, sobre heroísmo, sobre a Amazon.com, contra uma operadora de celular[**], etc etc. Justin Timberlake, que já tinha feito um bom papel em A Rede Social, mostra no papel de Dylan que tem timing para a comédia. Mila Kunis, que mexeu com a libido de quem entendeu O Cisne Negro, mostra no papel de Jamie que tem pernas – sua atuação, contrastada ao resto do elenco, deixa a desejar.
Em resumo: vá ver sem expectativas, ou aguarde o DVD. E se tiver saco espere pelo final dos créditos.
[*] não são atores lembrados pelo nome, até porque acabam fazendo papéis secundários. Patricia foi uma das Rachel de Ilha do Medo (Shutter Island) e esteve em filmes como Dogville, Lars and the real girl, Vicky Cristina Barcelona, O agente da estação e Elegy (Fatal). Woody, o barman do seriado Cheers, já foi protagonista em Natural Born Killers (Nascidos para matar). Jenkins fez vários filmes com os irmãos Cohen e foi o psiquiatra faminto no Quem vai ficar com Mary? [***] Se quiser conhecer o trabalho de Jenkins ache o filme The visitor (O visitante), o único em que me lembro de vê-lo como protagonista.
[**] a menção a estas empresas é velada mas evidente.
[***] ele é o psiquiatra que sai da sala pra lanchar e só ouve o trecho sobre a parada na estrada


Hehe… Perfeito o título do seu artigo!
Eu fiquei tonta, mas mais por querer também não perder o cenário, que era como um convite a conhecer NY.
A satirização às comédias românticas eram por ela ser muito romântica, de acreditar em príncipe encantado. No fundo ele também sonhava com um relacionamento duradouro.
Eu, que vi mais por querer ver mais uma atuação da Mila (Gostei dela em Cisne Negro.), nem criara expectativa, e acabei amando o filme.
E só achei que a Clarkson ficou intimidada. Para uma personagem porra-loka, ela estava muito intimista. Foi a impressão que tive.
No mais, vou querer rever quando passar na tv.
Acabei de assistir…
Qualquer semelhança com No Strings Attached (Sexo sem compromisso) com Natalie Portman não seria mera coincidência.
Quanto ao argumento, isso era uma postura popular nos anos 70, tanto que a mãe da moçoila lembrou muito bem isso, e sua filha sempre lhe perguntando quem seria o seu pai. Quem? Uma geração copiando a outra e não lembrando que um ato pode desencadear uma consequência…
Amizade Colorida em nova roupagem no século XXI com alguns nomes pomposos “ficante” , “relacionamento sério” etc, e pelo título do filme, conclui-se que o responsável pela tradução conhece bem o termo em desuso e que, literalmente, ‘encaixou direitinho’ neste romance, só que agora homens e mulheres colocados em pé de igualdade em todos os sentidos até sob os lençóis. Na vida real dificilmente teria um final feliz -Sexo sem compromisso / Amizade colorida? Nem na arte pelo visto…
Concordo: “pena que o filme se encaixa perfeitamente na categoria…”
Deveria ter esperado o DVD, mas como sofro de ansiedade…
Gostei do Flash Mobs.
Antes de mais nada o que Jamie e Dylan tinham não era sexo sem compromisso. Pelo contrário, eles tinham um compromisso complicado, cheio de cláusulas justamente para não misturar sexo e amor.
Na verdade o filme, querendo dar lição de moral de que sexo sem compromisso não dá certo, mostra que:
- o namoro sério do Dylan deu errado
- o namoro sério da Jamie não dá certo
- o namoro da Jamie com o médico não dá certo
- o casamento do pai do Dylan não dá certo
- a irmã do Dylan, tão cheia de moral, está largada
- o sexo sem compromisso do Dylan e da Jamie faz com que eles fiquem juntos, o que não aconteceria de outro jeito
- e enquanto rolam os discursos de moralidade, o editor de esportes e a mãe da Jamie vão vivendo suas vidas na boa.
Comédias românticas são isso mesmo. Melhor perguntar ao Seinfeld o que ele acha: http://www.youtube.com/watch?v=Xm-S2jBTl3g.
Concordo. O filme poderia ir até o final ao tema proposto e tudo o mais deixar a mercê do destino. Talvez não fosse nem questão de moralismo; o ser humano é um ‘animal’ carente por natureza, carnal ou emocionalmente e bem ou mal acaba surgindo uma ligação afetiva se a tal amizade colorida der certo.
Mas numa coisa você está absolutamente certa: tiraram esta expressão do fundo do baú.