O filme inglês An education (aqui lançado sem o artigo indefinido, com o título Educação) tem gerado boas discussões, e chamou a atenção pelo destaque dado à atuação de Carey Mulligan, indicada ao Oscar de melhor atriz. Carey, por sinal, já ganhou 13 prêmios por sua atuação neste filme.
Algumas críticas ressaltam como maravilhosas coisas que achei bem mais-ou-menos, outras críticas descem a lenha em aspectos do filme que achei muito bons. Como são muitos assuntos, vou fazer algo que normalmente não faço neste blog: quebrar o post em sub-seções.
A diretora
Lone Scherfig não é uma diretora muito conhecida, mas mora em minha lembrança por um filme muito especial: Italiensk for begyndere (Italiano para principiantes), um filme Dogma extremamente sutil e cativante. Ela mantém seu olhar afiado neste An education, conseguindo fazer um filme de época sem que o ambiente dos anos 60 roube a atenção, que ela consegue manter focada nos personagens.
O roteirista
Nick Hornby é na minha opinião um dos melhores escritores ingleses da atualidade (sinta-se à vontade para tirar o “ingleses” da frase anterior, ele fica bem neste ranking também. Alguns de seus livros foram para as telas, desde o engraçadinho [*] About a boy (Um grande garoto), muito bem transcrito para a tela, até High Fidelity (Alta Fidelidade), que consegue ser um ótimo filme apesar das muitas alterações feitas – por exemplo, a ação sai de Londres, único lugar do mundo onde a coisa poderia realmente acontecer, e vai parar em Chicago.
An education não é um livro de Hornby. Ele simplesmente fez o roteiro com base nas memórias de Lynn Barber, mas já já chegaremos a isso.
As malas
Antes de mais nada: Jenny – a personagem principal – é uma mala. Na boa: já nas primeiras falas do filme, ela insere no meio de uma conversa normal trechos de um francês mal pronunciado, sem qualquer justificativa que não seja o pedantismo. A fala final mostra que Jenny é uma babaca completa – teve toda uma educação e concluiu aquilo? Desculpem, mas até a Bruna Surfistinha foi um pouco mais profunda no relato da sua educação.
Mas não saiam culpando a pobre Jenny. Mala mesmo, sem alças, sem rodinhas, sem etiquetas, ensopada e meio rasgada, é Jack, seu pai. Alfred Molina está ótimo no papel e consegue retratar o pai absolutamente babaca.
Já Peter Saasgard faz bem o papel do simpático e conquistador David. Simpático, mas sem alça também.
Das críticas: previsível e difícil de acreditar?
Li nas críticas uma análise quase contraditória do filme: que a estória é muito previsível em umas, que a estória é muito forçada e não dá para acreditar. Não é a primeira vez em que vejo isso, e normalmente acontece em filmes que se baseiam em uma biografia mas que não começam com o letreiro “baseado em fatos”. [**]
Pois então. An education conta a adolescência de Lynn Barber. Se quiser ler diretamente, a autora contou ao Guardian sua estória. Que inclui a proposta frutífera de desvirginização e outros detalhes que tornam a estória difícil de acreditar.
Das críticas: uma nova Audrey?
Em um ponto as críticas normalmente concordam: a atuação de Carey é ótima. E daí saem para a comparação: segundo muitos críticos, ela seria uma nova Audrey Hepburn.
Se eu concordo? Nem um pouco. Primeiro porque Audrey falava francês (quem resiste quando ela chama o pai em francês em Como roubar um milhão de dólares?). Segundo, porque a comparação que faço é outra (ver abaixo).
A pergunta que não quer calar
Olivia Williams faz o papel (mínimo) da professora legal, Miss Stubbs, provavelmente a única personagem que se salva nesta estória toda. O filme deixa claro o papel de Miss Stubbs como incentivadora de Jenny e como referência (inclusive ética). Mas há uma lacuna: o filme insinua mas foge de um assunto: qual a verdadeira relação entre ela e Jenny?
Um ponto alto: Rosamund Pike
Finalmente deram a Rosamund Pike um papel cômico, e ela se sai muito bem no papel de uma burra absoluta. And proud of it.
[putz, até que enfim] A atuação de Carey
Ah, sim. Achei ótima.
[e pra completar] de onde saiu este título para o post?
O tema principal do filme é a paixão de uma adolescente de 16 anos por um adulto nos anos 60. Ou seja, antes de rotularem isso de pedofilia – acho que naquela época o cara seria no máximo chamado de papa-anjo, e provavelmente como elogio. Naquela época, ainda era mais importante arrumar marido.
E o tema traz à mente a comparação com outro filme sobre o mesmo assunto mas com uma abordagem totalmente diferente: Dio comme ti amo. Neste filme, Gigliola Cinquetti encarna a adolescente apaixonada mas muito mais consequente do que Jenny. De troco, o filme deixou belas músicas, como a que dá nome ao filme e a música de abertura, Non ho l’età (em que ela diz ‘não tenho idade para sair sozinha com você’). O youtube tem a cena inicial (com non ho l’età) e a cena final (com dio comme ti amo).
Pois então, Carey é a nova Audrey Hepburn? Não acho. Talvez uma Gigliola – se cantasse como ela.


Tenho que começar a fazer uma lista com os filmes que vc recomenda (adoro!)
… e qta malça sem alça, hein, rssss?
e eu nem tinha notado que o título tava estranho, rsss…. só vc mesmo.
bjo
Vc assistiu “Precious”? O que achou?
(ainda não vi)
Ainda não consegui combinar com meu estômago para ver Precious. Tô adiando. bj
* mala (rss, eu e meu teclado)
malça sem alça, gostei, rima rica… rs
Roberto, nem achei a Jenny apaixonada, ela se encantou pelo status do cara, bem como a sua família. Como eu disse, fiquei decepcionada com ela que, como você disse, era pretensiosa. E consequentemente, pouco inteligente, porque caímos muito fácil nessas armadilhas quando nos achamos espertos demais.
A comparação com Audrey Hepburn foi esteticamente construída… se é legítima eu não sei.
E claro, A loira é a melhor parte do filme! rs rs s
“Vai para Oxford para ler livros?!! :-O
livros?!! — pergunta novamente com mais desdém”
Boa observação, ela estava interssada, não apaixonada.
Quanto à loira, vale lembrar que o filme se passa numa época anterior à invenção do conceito de ‘loura burra’.
[...] (Italiano para principiantes), e mais recentemente An education (Educação) que já comentei aqui. Não ia deixar passar um novo filme dela sem dar um pulo no [...]