Desafio: Oscar 2000
Recebi o seginte desafio da cinéfila em transe: criar uma lista ideal dos concorrentes ao Oscar do ano 2000 e explicar o porquê da exclusão de algum e a inclusão de outro, comparando com a lista oficial da academia nas categorias “Melhor Filme” e “Melhor Diretor”.
A primeira coisa que me ocorreu: por que logo 2000? Não podia ser outro ano qualquer? Mas foi só pensar um pouco para lembrar que 2000 foi um ano mágico para o cinema, com alguns filmes independentes (ou quase) que causaram um impacto muito forte. Mais que isso, o ano de 2000 nos presenteou com filmes péssimos que foram tremendamente cultuados. Com isso, o desafio da Cinéfila acabou virando antes de mais nada uma proposta para uma deliciosa viagem no tempo.
O que aconteceu em 2000? Vimos pessoas mortas. Choveu sapo, inesperadamente. Acompanhamos um saco plástico voando num redemoinho. Winona foi interrompida mas Jolie levou a fama. Saímos do cinema cantando Mambo number 5 depois de ver um ratinho, ouvimos Phil Collins cantando na selva. Aprendemos um novo vocábulo: unclefucker. Vimos Ralph Fiennes perder Julianne Moore, vimos Sean Penn dirigido por Woody Allen, vimos até David Lynch fazendo um filme com começo, meio e fim. E, principalmente, descobrimos Hillary Swank.
Muito rápido? Vamos passar do trailer à degustação:
Provavelmente o maior evento de 2000 foi O Sexto Sentido – pelo menos o que mais impacto teve, porque agradou a todo tipo de espectador. “I see dead people” virou uma das frases inesquecíveis do cinema (já falei sobre O Sexto Sentido aqui). Um novo diretor e um novo ator mirim seduziram as multidões numa trama óbvia contada como um truque de mágica. Bem debaixo de nosso nariz, logo no início do filme, estava claro quem era o morto, mas Shyamalan nos pregou sustos e nos fez chegar até a cena do anel para cair a ficha.
Menos impacto, mas somente por atingir um público menor (seleto, diriam uns, corajoso, diriam outros, bando de doidos diria a maioria), teve Magnólia, um filme forte para amar ou odiar. Embalado por músicas de Aimée Mann, o diretor P.T. Anderson nos conduziu numa viagem deliciosa que começava com “fatos” registrados como se fossem documentários antigos e seguia com histórias paralelas que só tinham em comum a Califórnia em que, parece, vai chover. Magnólia é um filme sobre escolhas e coincidências. O policial em crise, a drogada, o moribundo, o enfermeiro, o hard-machista, o garoto que concorre ao prêmio num game show… e aí, do nada, a chuva mais famosa do cinema: sapos, milhares de sapos. Para muita gente que não prestou atenção, um absurdo. Para quem viu as referências ao Êxodo, não foi a primeira chuva deste tipo.
Na minha humilde (?) opinião, Beleza Americana foi o filme mais renovador. Através de Ricky, o filho problemático do coronel (Chris Cooper dando uma aula de atuação), somos expostos a um conceito de estética diferente: da esquisitice do curtametragem com o saco plástico à cena linda do sangue na cozinha. Através do quarentão Lester (Kevin Spacey) e sua mulher (Annete Bening) acompanhamos um casal em crise, daquelas em que a prioridade entre sexo e limpeza do sofá está bem definida – pro lado de cá. E, num pano de fundo, a sociedade ocidental – especialmente a americana, retratada de forma cruel. Perfeito na forma, delicioso no conteúdo, Beleza Americana mereceu os Oscars que recebeu.
Um pouco mais leve, Garota Interrompida conta a estória de Susanna, um dos melhores papéis de Winona Ryder. Só que, ao ser internada (tendo assim sua vida interrompida), ela conheceu Lisa, uma Angelina Jolie que lhe roubou o filme. Muita gente acha que a Jolie era a Interrompida. Merecidamente. Pobre Winona. (Pra quem não acredita que Winona é a interrompida, basta ver o Oscar que a Angelina ganhou – o de coadjuvante).
Musicalmente, 2000 nos trouxe boas coisas. Ao final do bobinho mas divertido Stuart Little, surpresa no meio dos créditos: Mambo number 5! A experiência de ver a criançada dançando no cinema, sem a menor noção da letra poligâmica da música, foi inesquecível. Outro filme infantil, Tarzan, veio com uma trilha sonora excepcional de Phil Collins, inclusive com You’ll be in my heart. Mas acho que musicalmente nada bateu o impacto de Wise Up, cantada por Aimée Mann com “apoio” do elenco de Magnolia.
2000 trouxe para os cinemas o incorretíssimo South Park, onde um Satanás gay tem uma relação masoquista com Saddam Hussein. Só citei por causa do unclefucker.
2000 também trouxe mais um filme de Neil Jordan, Fim de Caso (The end of the affair), em que um amor aparentemente capaz de resistir a tudo se esfacela de repente. Pois é, Magnólia era o filme sobre escolhas, mas em Fim de Caso Ralph Fiennes viu sua vida destruída por uma escolha de Julianne Moore que ele nunca entenderia. (nem eu, se alguém perguntar)
Ainda em 2000, Woody Allen resolveu contar a história do segundo melhor intérprete de violão do mundo, Emmet Ray, e conseguiu dar a Sean Penn um papel ideal. Sweet and Lowdown - divertido, ótima música, onde Woody conta a história da paixão de um homem… por si mesmo.
David Lynch fez um filme com cara de documentário: a história real, outra trilha sonora fantástica, nos leva de carona numa viagem pelas estradas americanas… em um cortador de grama velho. Pela descrição, não parece grande coisa? Veja.
Teve ainda o filme do Ripley em que Jude Law e Phillip Seymour Hoffmann arrasaram, teve Neve sobre os Cedros. Teve Buena Vista Social Club, mais um filme perfeito com música ótima. Teve Tudo sobre mamãe (foi assim que traduziram?) do Almodóvar. Teve As cinzas de Ângela, dolorido.
No meio desta safra toda, Hillary Swank chegou do nada e roubou a cena em Meninos não choram, filme que conta a história de Brandon Teena, que mostra que ser homossexual em Nebraska não é uma boa ideia. Se o desafio fosse indicar a lista de melhores atrizes em papel principal em 2000, eu indicaria Hillary Swank, Hillary Swank, Hillary Swank, Hillary Swank e Julianne Moore. Nesta ordem.
(neste momento eu deveria mudar a narrativa para o estilo dos comerciais de aparelhos de ginástica: não vá olhar o final do post… ainda tem mais! guardamos o melhor para o final. Tendo lido este texto enorme até aqui, você ganha o direito de ler sobre mais um filme)
Não existe Oscar de filme mais original. Se existisse, Quero ser John Malkovitch não teria competidor. Spike Jonze conseguiu fazer o impossível: transformou Cameron Diaz em uma mocréia, filmou um roteiro absolutamente insano (e genial) de Charlie Kaufmann, nos fez viver momentos na mente de John Malkovitch, que fez o papel dele(s) mesmo(s).
E pra terminar 2000 trouxe uma obra-prima: O Clube da Luta. Só que é impossível explicar por que este filme é tão genial sem entregar algumas coisinhas do roteiro. Quem quiser, avise que conversamos em particular.
Isto posto, vamos à lista que responde ao desafio da cinéfila?
A lista dos indicados ao Oscar de 2000 foi a seguinte:
Melhor filme:
American Beauty – Beleza Americana (vencedor)
The Cider House rules – Regras da Vida
The insider – O informante
The green mile – À espera de um milagre
The sixth sense – O sexto sentido
Melhor diretor:
Sam Mendes por Beleza Americana (vencedor)
Lasse Hallström por Regras da Vida
M. Night Shyamalan por O Sexto Sentido
Michael Mann por O Informante
Spike Jonze por Quero Ser John Malkovich
Minha lista de melhor filme manteria dois deles: Beleza Americana (por ser um filmaço) e O Sexto Sentido (pela magia). Adicionaria à lista Magnólia e O clube da luta – os motivos das inclusões estão acima. E (vocês acharam que eu não ia guardar uma surpresa na manga?) completaria a lista com o filme mais tesudo da história da humanidade, Amor à flor da pele (Fa yeung nin wa), de Wong Kar-wai. Um filme chinês com cena final em Angkor-wat e Quizas com Nat King Cole cheio de sotaque na trilha sonora.
O motivo das exclusões? O informante eu excluiria simplesmente por ser um filme muito ruim, com uma trama que não se sustenta, uma das piores interpretações da carreira de Nicole Kidman. (ver PS3 para entender por que eu risquei isso aqui). Um filme para ser relegado ao esquecimento. Regras da vida e À espera de um milagre eu não coloco na lista por um motivo trivial: não vi, nem me interessei em ver.
Na lista de diretores eu manteria Sam Mendes, Shyamalan e Jonze. Incluiria P.T. Anderson pela brilhante condução de um filme complexo como Magnólia e ficaria tontinho tentando decidir entre Woody Allen, Kar-wai e Neil Jordan para a quinta vaga.
PS: fiquei só no lado positivo, mas 2000 teve sua safra de filmes decepcionantes. Começando com o tão esperado Star Wars Episódio I que não funcionou bem, passando pela bomba de Homem bicentenário que conseguiu estragar um conto do Asimov, chegando até A Múmia, que estabeleceu um novo padrão de ruindade. Sem contar que o filme mais pretensioso e menos imaginativo, Matrix, também surgiu neste ano.
PS2: parece que tenho que passar este desafio adiante. Será feito.
PS3: ao falar do filme O Informante, fiz uma confusão; achei que era um filme de Sidney Pollack com Nicole Kidman e Sean Penn. Realmente este filme saiu aqui como A Intérprete – o filme nem é de 2000, é mais recente. O Informante é o filme The Insider, de Michael mann – um bom filme, baseado em uma história real envolvendo a indústria do fumo. Bem feito, funciona como denúncia do que todos já sabemos, mas não tem estatura para o Oscar. Fica fora da lista do mesmo jeito. Lella, obrigado por apontar o erro!
Filed under: No cinema, Outras coisas | 6 Comments
Tags: Beleza Americana, Fight club, filme tesudo, Kar-wai, Lynch, Magnolia, Malkovitch, Osment, Quizas, sapos, Sexto Sentido, Swank, Winona

Algo me diz que preciso rever Magnólia pra ter certeza – ou não – do bando de doidos que vocês são… Angelina Joli muito boa em Garota Interrompida, tão boa que nem parece ela! rs rs s Cameron Dias feia não tem preço! Aliás, Angelina não está feia, mas sua beleza não atua no filme. Bem, uma coisa é unanimidade: Beleza Americana encabeça as listas. 2000 foi um ano especial, com certeza.
Se for rever Magnólia, preste atenção na cena em que o policial e a viciada se encontram. A música da Aimée Mann descreve exatamente o que está acontecendo – nada surpreendente, o P.T. Anderson explicou que escreveu a cena com base na letra da música.
HUm… estou começando a entender… o cara selecinou todas as músicas dele, reproduziu elas em ordem randômica e escreveu o filme de acordo com as músicas que ia ouvindo… tudo explicado! rs rs sss brincadeirinha. Em breve, comentarei.
Não, ele escolheu uma única música dela e escreveu uma cena que acontece na mesma velocidade que a música.
O que ele pegou em ordem randômica e usou no filme foi o livro de Exodus. O filme tem várias referências aos números 8 e 2. Se olhar Êxodo 8:2 dá para entender uma cena do filme.
“O informante eu excluiria simplesmente por ser um filme muito ruim, com uma trama que não se sustenta, uma das piores interpretações da carreira de Nicole Kidman.”
Nicole Kidman??? Não trocou de filme, não? Ela não atuou em ‘O Informante’.
Filme esse que eu adorei. Escrevi sobre ele:
http://lella.wordpress.com/2008/10/25/o-informante-the-insider/
Al Pacino e Russel Crowe estão ótimo! E a trama aborda a linha tênue entre a ética pessoal e a regida pela profissão da pessoa. Qual é a que prevalece.
No mais, parabéns pelo texto!
Oi! Olha, poderia até ter passado despercebido por mim, caso ou não tivesse visto ‘O Informante’, ou não tivesse gostado tanto dele. Que foi o meu caso.
Da Lista, eu não o excluiria não. Por ter levado não apenas uma grande denúncia de algo ilícito da indústria tabagista, mas também por mostrar os bastidores das reportagens investigativas. O que de fato prevalece; o que vai a público.
Agora, não tiraria o prêmio de ‘Beleza Americana’. Por ele mostrar que o sentir-se um loser por lá ainda é algo forte.
Bom final de semana pra ti!