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Olhem na figura abaixo uma nova definição para o termo “pão-duro”.

Mão de vaca

Mão de vaca

Uma empresa que se dá ao trabalho de me mandar pelo correio um catálogo colorido de 32 páginas e oferece uma esteira curtinha [*]  a quase R$ 1.700 e faz questão de dizer que não vai dar uma coisinha de plástico que você ganha de brinde em compras de 100 reais?

[*] a esteira é tão curta que o modelo está com uma perna na vertical; a velocidade da esteira é limitada a 10 km/h, uma corridinha leve.

Um bom motivo para ir ao cinema: uma ótima comédia italiana.

O Beijo (de Doisneau) - Houston Skirt

Ex, de Fausto Brizzi, chegou aos cinemas daqui com o nome de “Ah… o amor“. Pois é… O filme traz vários personagens cujas estórias se misturam, sempre com o tema de amor, casamento e separação (daí o nome original): dois casais com filhos que estão se separando, um policial que se recusa a aceitar ter sido trocado por outro, uma jovem casal que se distancia por causa do trabalho, um casal que está para se casar, filhos, padre, juízes de vara de família, pedreiro, amigos, colegas de trabalho, …

O roteiro é brilhante. Além de pular de forma ágil de uma subtrama a outra, Ex guarda surpresas distribuídas ao longo do filme e várias falas espertas. Aliás, se entender um pouco de italiano, tente dispensar as legendas, que tiram boa parte da qualidade dos diálogos ao simplificar as falas e remover referências criativas.

A ação passa por Roma e arredores, Paris e Wellington, com uma rápida escala em Hong Kong. Brizzi aproveita muito bem a foto de Doisneau reproduzida acima ao fazer dela o fio condutor de uma das narrativas.

Aviso aos navegantes: lembra de Festa de Babette? Recomenda-se comer algo antes de ver Festa de Babette para não ficar no desespero ao ver as delícias que ela prepara e descreve. Bom, provavelmente você ficará melhor durante o filme Ex se atualizar sua cota de beijos antes do filme.

A esta altura quase todo mundo fez sua crítica a Avatar. No fundo todos achando a mesma coisa – que os efeitos especiais são ótimos e que o roteiro é horrível. Alguns achando o filme ótimo pelo primeiro motivo, outros achando péssimo pelo segundo. Minha opinião está clara no título do meu post sobre o assunto (A evitar).

Mas o jornal de sábado trouxe a crítica definitiva do filme, em uma frase sucinta e muito feliz de Zuenir Ventura. Disse o venerando jornalista: “Achei sensacional…mente chato”.

Fantástico, resumiu tudo em uma frase.

Estava almoçando tranquilamente quando na mesa ao lado sai o seguinte comentário sobre a irmã de um dos comensais:

- Ela é um cruzamento [sic] de Pinóquio com Woody Allen.

Sinceramente, não consigo nem imaginar o que ele quis dizer. Nem vou querer conhecer a pessoa.

O uso do cinema para promover produtos não é novo: algum personagem (ou todo o elenco) usa um produto e a marca aparece na tela. Em geral, o merchandising é mal feito e incomoda, podendo chegar a extremos de mau gosto como o filme brasileiro patrocinado por uma prefeitura que fez os personagens viajarem de Recife até Palmas, Tocantins - e gastarem alguns diálogos elogiando a beleza da cidade. O merchandising, no entanto, pode até ser óbvio sem incomodar: o merchandising de carros em 007 nunca causou revolta dos fãs, e o logotipo do refrigerante preferido do papai noel surge descaradamente em Blade Runner.

Antes de mais nada: continuo achando que o melhor merchandising de todos os tempos foi o da Calvin Klein em De volta ao Futuro.

Isto posto, o filme Up in the air (Amor sem escalas) é sem dúvida o mais ambicioso merchandising do cinema (se descontarmos coisas como os filmes estrelados pela boneca Barbie). E – confie em mim – é o merchandising ideal, que se encaixa totalmente na trama do filme e que pode até passar sem ser percebido por muita gente. O merchandising sai da tela e vai para o site da AA, onde você pode ganhar prêmios. O terceiro prêmio é de dar água na boca. :)

Além de contar com George Clooney, Up in the air é dirigido por Jason Reitman, o que já é recomendação suficiente para ir ao cinema. Reitman dirigiu dois excelentes filmes: Thank you for smoking (Obrigado por fumar), uma comédia de humor negro sobre a vida de um competente profissional que se dedica a defender a indústria do tabaco, e Juno, que passou para a tela o surpreendente roteiro de Diablo Cody.

Reitman continua afiado na direção. O filme conta a estória de Ryan Bingham, um outro especialista em uma profissão estranha, que o leva a viajar por todo o seu país. Passando 88% de seu tempo fora de sua cidade, o verdadeiro lar de Ryan são os aviões da American Airlines e os hotéis Hilton, cujos equipamentos e serviços são mostrados à exaustão mas sempre de forma dinâmica e sem atrapalhar o andamento da estória. Nas mãos de Reitman, até a inspeção dos passageiros pela TSA, que exige que o passageiro tire até os sapatos, parece ser emocionante.

Um parênteses: eu entendo um bocado desta vida entre aeroportos e hotéis, e apesar de não ter uma história parecida com a do Mr. Bingham, considero que o filme retrata com precisão alguns aspectos da vida up-in-the air. Inventar um critério para escolha de filas, por exemplo, é bem típico. Ter uma pilha de cartões de fidelidade também. No meu caso, até da falida Transbrasil. O cartão da Panam – primeiro programa de milhagem – eu joguei no lixo no dia em que a empresa faliu e me abandonou em um aeroporto texano.

Up in the air na vida real - alguns de meus companheiros de viagem

Para mim, a maior surpresa do filme foi a atriz Vera Farmiga. Descobri que só assisti a um filme dos muitos que ela fez (o mais ou menos Breaking and Entering, aqui chamado de Invasão de Domicílio). Vera faz o papel de Alex Goran, um outro ser deste mundo de viagens, cujos caminhos eventualmente se cruzam com Ryan. Vera encara perfeitamente a mulher que tem exata noção de seus poderes de sedução.

O roteiro do filme, também assinado por Reitman, já amealhou o Globo de Ouro [*]. Gostei muito do roteiro, simples, quase unidirecional, mas rico em detalhes e capaz de mergulhar fundo na construção de alguns personagens, inclusive a jovem Natalie Keenan, interpretada por Anna Kendrick. Só um reparo: em um momento, Ryan faz uma coisa que faz todo o sentido no contexto do filme mas que é totalmente implausível.

Up in the air traz um desfile constante de merchandizing da American e do Hilton, mas Reitman não abre mão da crítica – ele mostra como a cortesia da atendente surge da tela do computador, e como seus poderosos cartões de fidelidade não podem nada em um hotel da rede Matterhorn. O momento culminante do filme ocorre a bordo de um avião da American, e até a musiquinha que precede os anúncios se faz presente. Um filme a que você assiste sem ver o tempo passar e que te faz sair do cinema com uma sensação ótima, de paz com a vida e com a tela.

[*] o filme teve mais indicações para o Globo de Ouro: melhor filme, melhor ator (Clooney) e melhor atriz coadjuvante (Farmiga e Kendrick).
[**] obrigado à Claudia que pegou um errinho já corrigido…

Os filmes de Ken Loach não costumam ser distribuídos para os multiplex da vida e rapidamente acabam no chamado “circuitinho” das salas especiais. Seu trabalho mais recente, Looking for Eric (À procura de Eric), cumpre atualmente este purgatório.

Indo direto ao assunto: não deixe de ver.

À procura de Eric é uma fantasia narrada em tom de comédia que desperta reações exaltadas da plateia. Um exemplo está aqui. My feelings exactly.

O filme começa mostrando a vida do carteiro Eric Bishop, onde tudo parece estar errado: problemas em casa com os filhos adotivos, com a filha, com a ex que abandonou há trinta anos. Alguns problemas simples que ele poderia resolver sozinho, outros bem piores que isso. Eric tem amigos, carteiros e fãs do Manchester United, que percebem que ele precisa de ajuda e tentam animá-lo inclusive com piadas postais [*]. Mas ele acaba recorrendo à ajuda de seu maior ídolo, o quase xará – se você descontar o acento – Éric Cantona. Figura controversa, metido a filósofo, Éric Cantona imaginado por Eric é magistralmente interpretado pelo verdadeiro Éric Cantona.

O amigo imaginário do carteiro Eric contribui com conselhos sábios que o ajudam a sair das encrencas atuais (passando por outras piores em alguns momentos). A interação entre os dois Erics é bem explorada por Ken Loach, que transita do imaginário do filme (o jogador de futebol dando dicas ao carteiro) ao mundo real (ao dar um tom confessional a Cantona, que lembra de seus melhores e piores momentos. Outra brincadeira de Ken Loach é a inclusão de John Henshaw no elenco no papel de Meatball (literalmente: almôndega), o líder no grupo de amigos de Eric. Hershaw é o garoto propaganda dos correios britânicos, o que torna ainda mais engraçada a sua melhor fala no filme.

Um parênteses: algumas sinopse insinuam que, por ter Cantona no elenco, trata-se de uma comédia sobre futebol. Profundo exercício de lógica, mas totalmente errado. Na mesma linha de “raciocínio”, talvez seja importante dizer que, apesar de tratar da vida de um carteiro (e seus colegas), também não é um filme sobre o sistema postal.

Éric Cantona não é um iniciante no cinema. Além de vários filmes que não vi, ele fez o M. de Foix no filme Elisabeth. Sem contar que participou, no papel de Jo Santi, de um dos melhores filmes da décadas passada, Les Enfants du Marais, lançado aqui em poucas salas com o nome O olhar da inocência. Este filme belga foi lançado aqui em DVD. Clique aqui para ver um trailer não legendado em que Cantona aparece.

Curiosamente, o filme de Loach tem um ponto em comum com o livro Slam, de Nick Hornby, um dos melhores escritores ingleses da atualidade. Slam conta a estória de Sam, um garoto que se encontra em uma situação complicada e que conta com a ajuda de seu ídolo esportivo (no caso, o skatista Tony Hawk). Talvez Tony Hawk seja menos conhecido fora das pistas de skate que Cantona, mas ele também entra na vida de Sam por meio de um poster na parede.

saraiva.com.br - divulgação

Ken Loach consegue fazer um filme com um lado sério (ao tratar carinhosamente dos problemas de Eric Bishop) e com um lado fantástico, que chega a ter um momento de Eu quero ser John Malkovitch [**]. Empolgação garantida.

[*] uma das piadas, caso você queira ler:
- você entende de palavras cruzadas? – sim. – então me ajuda: carteiro cansado. – how many letters? – too many letters.
Em português perde a graça (graça???) porque cartas e letras são palavras diferentes.
[**] se você não se incomoda com críticas que contam (e mostram) o final do filme, procure a crítica da veja no YouTube.

Confesso que, apesar de dirigido por Bryan Singer sobre um roteiro de Christopher McQuarrie (a dupla que fez Os Suspeitos/ The usual suspects), eu não fui ver Operação Valquíria (Walküre/ Valkirie) nos cinemas.

O filme, que acabei pegando na locadora, é totalmente assistível. Conta muito bem uma estória pouco conhecida fora da Alemanha, até porque não se encaixa no mito de que todos os alemães apoiavam o governo durante a segunda guerra mundial. Algumas atuações merecem destaque, mas vou me limitar a uma: Bill Nighy, mais conhecido pelos papéis exóticos que costuma fazer [*], encarna o general Olbricht, que compõe como um personagem carcomido pela indecisão. Surpreendente, excelente.

De resto, mais um filme em que todos os alemães falam inglês. Já reclamei desta aberração aqui. Mas Valkirie vai mais longe: o ator que faz o papel do chanceler alemão fala inglês com sotaque alemão. Irk.

Mas o legal de ter alugado Valkirie foi descobrir que nos extras do blu-ray (talvez o DVD também tenha) existe um tesouro escondido. Infelizmente sem legendas. Trata-se do documentário “The Valkyrie Legacy” [**], que conta a mesma estória do filme em um contexto mais abrangente. O documentário brilha em sua primeira metade, quando traça um painel da Alemanha desde o final da primeira guerra, explicando a ascensão dos partidos que polarizaram a eleição (comunistas e nacionais-socialistas). Depois disso, o documentário passa a descrever os atentados planejados e realizados contra o ditador inominável (você tem ideia de quantos foram?), e apesar de contar a mesma estória do filme – com as inevitáveis repetições – entrevista filhos e outros parentes dos envolvidos, com relatos pessoais impressionantes. O tratamento dado aos filhos dos conspiradores, mesmo após o final da guerra, é impressionante.

[*] Bill Nighy é o Quentin, líder do barco de Piratas do Rock (The boat that rocked), um personagem um tanto quanto peculiar. Em Simplesmente amor (Love actually) ele faz o roqueiro aposentado Billy Mack, uma espécie de tremendão britânico. Mas talvez seja mais conhecido por ter encarnado o Davy Jones na série Piratas do Caribe.

[**] o filme também tem o nome Valkyrie: The Plot to Kill Hitler

Faz um tempo que não escrevo sobre filmes nacionais. Anna Muylaert, em seu segundo filme, É proibido fumar, trouxe um filme que dá vontade de comentar e, mais importante, recomendar.

Anna iniciou na direção com Durval Discos, um filme marcante que agradou em cheio a muitos – me incluo neste grupo – mas que chocou a algumas pessoas. Anna deixou sua criatividade correr solta ao contar a estória de Durval, sujeito mimado que, não satisfeito em morar com a mãe, mantinha um negócio familiar em sua casa para venda de discos de vinil. Durval Discos começa contando esta estória até que de repente surge uma informação inesperada, que abre a porteira para uma série de incidentes fantásticos que incluíam um cavalo no segundo andar. Com um excelente roteiro e embalado a uma ótima trilha sonora, Durval Discos deu uma injeção de sangue novo, rico em criatividade, no cinema nacional.

Na entressafra, Anna escreveu alguns roteiros, em especial o de O ano em que meus pais saíram de férias, um pequeno filme delicioso que mostra a ditadura brasileira do ponto de vista de uma comunidade judaica no bairro de Bom Retiro, em São Paulo. Tocante e original.

É proibido fumar traz de volta muitos dos bons elementos de Durval Discos, inclusive o disco de vinil que Max coloca numa pick-up. Talvez por maturidade, talvez para evitar o choque causado por Durval, o filme não tem os elementos de realismo fantástico do filme de estreia. 

No filme, Baby (Gloria Pires numa atuação competente mas não empolgante) tem uma vidinha bem sem graça em que a visita de potenciais locatários para o apartamento vizinho se torna um dos eventos que ela precisa observar. O apartamento acaba sendo alugado por Max, interpretado primorosamente por Paulo Miklos [*]. A trama é simples: mulher solitária encontra homem solteiro, rola um clima, e lá se vai rumo ao final feliz. Mas simples não significa convencional: Anna, que também escreveu o roteiro, inclui dificuldades como os vícios de Baby e Max (respectivamente o cigarro e Stelinha), problemas de família, sofás vermelhos e bolos recheados, que levam a um desfecho pouco convencional. O uso do circuito interno de TV do prédio é magistral.

Forte recomendação!

Sambando para sobreviver (imagem de divulgação)

[*] Paulo Miklos é (por enquanto) mais conhecido como integrante do conjunto Titãs. Ele iniciou no cinema com uma atuação impressionante (O invasor, de Roberto Brant – se não assistiu corra atrás), e atuou no filme Estômago, de Marcos Jorge, no papel do bandidão Etcetera.

The hangover (Se beber não case), indicado ao Globo de Ouro de melhor filme (comédia ou musical)

Por algum motivo, filmam-se muitas comédias, mas pouquíssimas boas comédias. The hangover, sem recorrer a nenhum dos nomes de comediantes da moda, consegue fazer uma comédia com o único ingrediente que importa: faz rir, e muito.

A premissa do filme é simples: Doug vai se casar e seus três melhores amigos resolvem levá-lo a Vegas para uma despedidada de solteiro. O filme mostra rapidamente os preparativos e a chegada ao hotel em Vegas e corta para o que realmente interessa: os amigos acordam no dia seguinte dentro de uma suite de hotel bagunçada, com dois detalhes: (a) não lembram de nada e (b) não acham o noivo. O resto do filme mostra os 3 fazendo a mesma coisa que a plateia: tentando descobrir o que aconteceu (e onde está Doug).

Criando situações absurdas, com piadas bem construídas, The hangover consegue divertir muito, principalmente quando nos faz rir dos personagens. Quando vemos o gordinho Alan com suas grosserias e piadas de mau gosto, não há como deixar de lembrar daquele conhecido que faz exatamente estas coisas.

Mais não conto para não estragar as surpresas, como o nome do dono do tigre.

Tigre? Em Vegas? Pois é, o roteiro é criativo.

Conforme prometido vou escrever sobre Sherlock Holmes, o filme de Guy Ritchie. Mas se você esperava ver um poster do filme ilustrando o post, se enganou de blog. Antes de falar do filme achei interessante mostrar algumas imagens tiradas em visitas distintas à terra de Holmes. No fantástico metrô que serve Londres, existe uma estação chamada Baker Street – para a qual convergem 5 linhas: Bakerloo, Jubilee, Hammersmith & City, Circle e Metropolitan. A estação, evidentemente, tem Sherlock Holmes como tema da decoração.

Há pouco mais de um ano me clicaram ali, intencionalmente jogando com a ilusão de uma sombra.

SH na estação de Baker Street

Baker Street continua existindo, mas pouco lembra a rua onde Conan Doyle colocou o apartamento que o Dr. Watson, ferido no Afeganistão, sublocou de um estranho funcionário do laboratório de química do hospital de Barts – o excêntrico Sherlock Holmes. O apartamento de ficção virou uma armadilha para turistas, o museu SH, completo com lojinha de souvenirs. Vi e fotografei a fachada da calçada oposta, não tive coragem de atravessar a rua, muito menos de entrar na loja.

O 221B fake em Baker Street

Não é de estranhar, portanto, que eu tenha aproveitado que estava por lá para dar um pulo em Leicester Square para ver o novo filme de Guy Ritchie sobre Holmes. Tinha vários motivos para ir de pé atrás, especialmente por saber que Ritchie costuma impor seu ritmo e sua visão peculiares. Também tinha motivos para ficar positivamente curioso – um deles, a escolha de Robert Downey, Jr. para o papel principal – afinal ele é um especialista na composição de personagens excêntricos, e Holmes é o freak quintessencial.

Saí do cinema de alma lavada. Por dois motivos. Primeiro: o filme é excelente, com direção firme e boas atuações. Segundo, porque para minha surpresa o Holmes deste filme é muito mais fiel aos livros que todos os outros que vi no cinema.

Explico: os filmes de Holmes o mostravam como um cara certinho, o típico herói-gênio (hoje em dia: nerd), sempre com sua jaqueta e chapéu de caça. Os filmes botaram na boca de Holmes a frase “elementar, meu caro Watson” que ele nunca usou nos livros.

Mas Holmes era bem diferente disso. Descrito logo no primeiro capítulo de Um estudo em vermelho como um sujeito de ideias estranhas por Stamford, o amigo de Watson, Holmes era um cara cheio de manias (cocaína era uma delas), cujas experiências no hospital incluíam espancar cadáveres. Watson impressionou-se tanto pelas qualidades quanto pelos defeitos de Holmes, a ponto de ter feito uma lista das 10 coisas que mais chamavam sua atenção: por exemplo, o quanto Holmes entendia de astronomia (zero), de filosofia (zero) e literatura (zero), seus conhecimentos específicos de botânica (limitados a venenos e entorpecentes), e – claro – seus amplos conhecimentos de química. Na lista de dez itens Watson descreve os atributos de Holmes como esportista (box, singlestick e esgrima).

Outra coisa que chama a atenção de Watson desde o início é a capacidade de Holmes de trabalhar sem se cansar em alguns momentos, e a capacidade de ficar parado no sofá por dias a fio sem se mover.

Talvez seja bom lembrar que Conan Doyle apresenta seu primeiro livro como uma mera transcrição das reminescências do Dr. Watson. O filme leva isto em conta (parcialmente).

Sherlock Holmes é um filme de Ritchie, com suas marcas por todos os lados. Ele toma várias liberdades – Watson não parece ter um problema assim tão sério no ombro, as lutas de que Holmes participa estão mais para luta livre do que para box, a trama do vilão parece ter saído de um livro de Agatha Christie e não de um Conan Doyle, e assim por diante. Vários americanismos aparecem (por exemplo o nó de forca do velho oeste aparece em Londres). Mas o Sherlock Holmes essencial está ali no filme: energético, maluco-beleza, sem a menor intenção de explicar suas ações e ideias, fissurado por Irene Adler.

Vou falar de algumas coisas específicas do filme:

Jude Law faz um Watson perfeito. Sempre perplexo com Holmes, mas ligado a ele por uma admiração e uma amizade que ele mal consegue aceitar, Watson não é o Sancho Pança que alguns filmes anteriores mostravam. Ele contesta Holmes e tem a medida certa de quando deve ficar quieto e fazer o que Holmes pede.

Mark Strong cria o vilão Blackwood com competência – sem cicatriz na cara, sem olheira, simplesmente com sua voz e uma postura messiânica, Blackwood convence.

Mas provavelmente a melhor surpresa para quem curte SH é a atuação de Eddie Marsan no papel do inspetor Lestrade da Scotland Yard. Excelente.

Rachel Mc Adams tem a beleza necessária para ser Irene Adler mas não convence como mulher fatal, e os olhos de Kelly Reilly fazem bem o papel dos olhos de Mary, a namorada de Watson na trama. As duas atrizes não chegam a atrapalhar, mas somem perto dos atores principais. O que me lembra de um dos acertos do filme: o corvo, tudo a ver com Londres, e que sempre aparece no momento certo.

Trama, aliás, um tanto confusa. Um dos pontos apontados como furo do filme é quando Irene corre de um ponto conhecido de Londres a outro. Em defesa do filme: eu já fiz este mesmo passeio, a pé (mas por um trajeto mais agradável). Em defesa de quem critica o filme: levei bem mais que trinta segundos. :)

A foto abaixo foi tirada no meio deste passeio. Uma tomada do filme mostra quase a mesma coisa.

Poucas diferenças de lá até aqui

Falta falar de uma coisa: Downey, Jr. Vou dizer só duas coisas: vá ver o filme, e não se surpreenda se ele ganhar o Globo de Ouro.

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