The hitcher (A morte pede carona) não me motivou a ir ao cinema quando foi lançado. Não lembro se foram as críticas, se foi alguém que me avisou. Os motivos de eu não ter visto foram enterrados nos arquivos da (falta de) memória. Enquanto isso, o filme foi ganhando status de cult, a ponto de ser incluído em várias listas e coletâneas, inclusive a cinemateca veja que trouxe o DVD a um bom preço para as bancas. Decidi comprar e tirar a limpo.
A conclusão é que minha decisão inicial não estava tão errada assim. Concordo que o filme tem uma qualidade: Rutger Hauer recebeu um papel sob medida, o psicopata sem nome [*], que ele tira de letra. Dar carona a um psicopata – que mãe não aconselhou seu filho a evitar isso? Hauer consegue ser o pesadelo de que mamãe avisou. Além disso, a ação se passa na famosa route 66, o que dá um certo charme ao filme.
Mas de resto o filme desaponta. O roteiro não segue a menor lógica. Os policiais são estúpidos e dirigem mal, seus carros capotam e explodem com qualquer coisinha – o carro do garoto bate de frente com um ônibus na contramão e continua rodando. O vilão tem o dom de aparecer na hora certa (por exemplo, ele surge do nada numa estrada exatamente no momento em que uma negociação estava sendo fechada). Mas – e principalmente – ele tem o dom de não aparecer quando isso interessa à trama. O idiota que deu carona a ele se “refugia” em alguns lugares com a maior calma, chega a dormir, achando que o vilão não vai aparecer (como os personagens de desenho animado, claro que ele aparece, mas na hora certa).
A última ação do vilão desafia a teoria da relatividade. [**] Dentro do apartamento, a TV fala cinco frases. Fora do apartamento, o vilão arma sua maldade envolvendo um caminhão, vários carros da polícia já chegaram e cercaram o vilão, e – inacreditável para quem até aqui era absolutamente incapaz de pensar - os policiais já tinham compreendido perfeitamente a situação. A relatividade maluca do roteirista faz com que em poucos segundos do tempo interior aconteça uma ação que duraria horas. (Nem vou comentar o fato de a estrada, sempre vazia até ali, está mais movimentada que a marginal do Tietê nesta cena).
Não bastasse a absurda onipresença do vilão, o roteiro também dá a ele a estrutura física do T-1000, o exterminador de metal líquido de o Exterminador do Futuro 2. Não interessa quanto ele se acidente, quantos impactos sofra, ele se levanta devagarinho e logo está em condições perfeitas de andar e continuar como se nada tivesse acontecido.
Fazer terror assim é fácil. Dê super-poderes ao vilão, contrate um excelente ator, e mande a lógica para o espaço.
[*] o idiota que deu carona a ele passa o filme convencido de que ele se chama John Ryder (João Carona)… rs
[**] outras ações também são “relativas”. Tente imaginar tudo o que deve ter acontecido entre o momento em que o fusca ultrapassa o carro do mané e o momento em que ele encontra o fusca abandonado na estrada. Não esqueça de calcular o tempo de caminhada sob chuva.



