Conforme prometido vou escrever sobre Sherlock Holmes, o filme de Guy Ritchie. Mas se você esperava ver um poster do filme ilustrando o post, se enganou de blog. Antes de falar do filme achei interessante mostrar algumas imagens tiradas em visitas distintas à terra de Holmes. No fantástico metrô que serve Londres, existe uma estação chamada Baker Street – para a qual convergem 5 linhas: Bakerloo, Jubilee, Hammersmith & City, Circle e Metropolitan. A estação, evidentemente, tem Sherlock Holmes como tema da decoração.
Há pouco mais de um ano me clicaram ali, intencionalmente jogando com a ilusão de uma sombra.

SH na estação de Baker Street
Baker Street continua existindo, mas pouco lembra a rua onde Conan Doyle colocou o apartamento que o Dr. Watson, ferido no Afeganistão, sublocou de um estranho funcionário do laboratório de química do hospital de Barts – o excêntrico Sherlock Holmes. O apartamento de ficção virou uma armadilha para turistas, o museu SH, completo com lojinha de souvenirs. Vi e fotografei a fachada da calçada oposta, não tive coragem de atravessar a rua, muito menos de entrar na loja.

O 221B fake em Baker Street
Não é de estranhar, portanto, que eu tenha aproveitado que estava por lá para dar um pulo em Leicester Square para ver o novo filme de Guy Ritchie sobre Holmes. Tinha vários motivos para ir de pé atrás, especialmente por saber que Ritchie costuma impor seu ritmo e sua visão peculiares. Também tinha motivos para ficar positivamente curioso – um deles, a escolha de Robert Downey, Jr. para o papel principal – afinal ele é um especialista na composição de personagens excêntricos, e Holmes é o freak quintessencial.
Saí do cinema de alma lavada. Por dois motivos. Primeiro: o filme é excelente, com direção firme e boas atuações. Segundo, porque para minha surpresa o Holmes deste filme é muito mais fiel aos livros que todos os outros que vi no cinema.
Explico: os filmes de Holmes o mostravam como um cara certinho, o típico herói-gênio (hoje em dia: nerd), sempre com sua jaqueta e chapéu de caça. Os filmes botaram na boca de Holmes a frase “elementar, meu caro Watson” que ele nunca usou nos livros.
Mas Holmes era bem diferente disso. Descrito logo no primeiro capítulo de Um estudo em vermelho como um sujeito de ideias estranhas por Stamford, o amigo de Watson, Holmes era um cara cheio de manias (cocaína era uma delas), cujas experiências no hospital incluíam espancar cadáveres. Watson impressionou-se tanto pelas qualidades quanto pelos defeitos de Holmes, a ponto de ter feito uma lista das 10 coisas que mais chamavam sua atenção: por exemplo, o quanto Holmes entendia de astronomia (zero), de filosofia (zero) e literatura (zero), seus conhecimentos específicos de botânica (limitados a venenos e entorpecentes), e – claro – seus amplos conhecimentos de química. Na lista de dez itens Watson descreve os atributos de Holmes como esportista (box, singlestick e esgrima).
Outra coisa que chama a atenção de Watson desde o início é a capacidade de Holmes de trabalhar sem se cansar em alguns momentos, e a capacidade de ficar parado no sofá por dias a fio sem se mover.
Talvez seja bom lembrar que Conan Doyle apresenta seu primeiro livro como uma mera transcrição das reminescências do Dr. Watson. O filme leva isto em conta (parcialmente).
Sherlock Holmes é um filme de Ritchie, com suas marcas por todos os lados. Ele toma várias liberdades – Watson não parece ter um problema assim tão sério no ombro, as lutas de que Holmes participa estão mais para luta livre do que para box, a trama do vilão parece ter saído de um livro de Agatha Christie e não de um Conan Doyle, e assim por diante. Vários americanismos aparecem (por exemplo o nó de forca do velho oeste aparece em Londres). Mas o Sherlock Holmes essencial está ali no filme: energético, maluco-beleza, sem a menor intenção de explicar suas ações e ideias, fissurado por Irene Adler.
Vou falar de algumas coisas específicas do filme:
Jude Law faz um Watson perfeito. Sempre perplexo com Holmes, mas ligado a ele por uma admiração e uma amizade que ele mal consegue aceitar, Watson não é o Sancho Pança que alguns filmes anteriores mostravam. Ele contesta Holmes e tem a medida certa de quando deve ficar quieto e fazer o que Holmes pede.
Mark Strong cria o vilão Blackwood com competência – sem cicatriz na cara, sem olheira, simplesmente com sua voz e uma postura messiânica, Blackwood convence.
Mas provavelmente a melhor surpresa para quem curte SH é a atuação de Eddie Marsan no papel do inspetor Lestrade da Scotland Yard. Excelente.
Rachel Mc Adams tem a beleza necessária para ser Irene Adler mas não convence como mulher fatal, e os olhos de Kelly Reilly fazem bem o papel dos olhos de Mary, a namorada de Watson na trama. As duas atrizes não chegam a atrapalhar, mas somem perto dos atores principais. O que me lembra de um dos acertos do filme: o corvo, tudo a ver com Londres, e que sempre aparece no momento certo.
Trama, aliás, um tanto confusa. Um dos pontos apontados como furo do filme é quando Irene corre de um ponto conhecido de Londres a outro. Em defesa do filme: eu já fiz este mesmo passeio, a pé (mas por um trajeto mais agradável). Em defesa de quem critica o filme: levei bem mais que trinta segundos.
A foto abaixo foi tirada no meio deste passeio. Uma tomada do filme mostra quase a mesma coisa.

Poucas diferenças de lá até aqui
Falta falar de uma coisa: Downey, Jr. Vou dizer só duas coisas: vá ver o filme, e não se surpreenda se ele ganhar o Globo de Ouro.