Cena 1:

Idade Média na Inglaterra. A multidão enfurecida grita, quer queimar uma mulher. O sábio Beldevere pergunta por quê.

Multidão: Ela é uma bruxa!

Beldevere: Como vocês sabem?

Multidão: Ela parece com uma bruxa! Fogueira nela!!!

Cena 2:

Idade das Trevas no ABC paulista. A multidão enfurecida grita, quer atacar uma mulher. Baseada na mesma lógica, a massa agressora acha que, por usar vestido curto, ela deve ser uma puta.

As semelhanças param aí. Na comédia Monty Python e o Cálice Sagrado (cena 1), a multidão levou a suposta bruxa ao sábio a quem cabia julgar o mérito da questão. Na comédia pastelão da Uniban (cena 2), na possível falta de um sábio de plantão, a multidão só foi contida pela polícia - chamada para evitar o que caminhava para uma agressão física.

A Uniban tentou de tudo: de início, fez de conta que nada tinha acontecido. Depois, segundo o site G1, teria colocado funcionários para tentar remover vídeos do YouTube (*). E no final terminou expulsando a aluna agredida. Pior ainda, resolveu fazer isto publicando um anúncio nos jornais.

Neste anúncio, a Uniban teria dito (só li a transcrição no jornal local) que aquilo que ingenuamente achei ser uma agressão verbal – alunos, funcionários e professores filmando e gritando “puta“  e “vagabunda” – na verdade foi uma “reação coletiva de defesa do ambiente escolar“. (**)

O assunto já foi comentado em todos os cantos, mas há dois tópicos que eu não vi receberem a devida atenção.

Primeiro: a reação dos grupos de defesa da mulher. Você viu como elas reagiram? Não? Nem eu. Só hoje li no jornal que a secretária especial de Políticas para a Mulher se posicionou contra a expulsão.

Segundo: a “visão” da Uniban. O anúncio em que divulga a expulsão tem por título”. A educação se faz com atitude e não com complacência”. Os gurus da Uniban que me desculpem, mas na minha opinião não é nada disso. Eu, que me envolvo com educação desde que comecei a trabalhar, prefiro resumir numa frase mais simples: Educação se faz com exemplo.

A Uniban alega que a aluna se vestiu de forma inadequada. Eu me dei ao trabalho de ir ao site da Uniban ver o que diz o regimento interno. Não achei nada sobre o assunto. Nada na lista de perguntas frequentes, neste link. Para não ser injusto com a Uniban, existe no site uma referência sobre vestimentas, no jornalzinho que está aqui neste link. Na página 4, uma reportagem sobre estilo fala sobre como se vestir mas não indica nada sobre o que usar em sala de aula. Note no topo da página a quantidade de vestidinhos mais coloridos e mais curtos que os da aluna expulsa.

Mas descobri uma coisa curiosa: a Uniban publica toda semana, quase religiosamente, seu diário oficial. Mas por algum motivo não publicou nesta semana. Vejam na imagem abaixo que nem os feriados de 7/9, 12/10 e 2/11 impediram a publicação.

Uniban

Os diários da Uniban

De Québec, pelo Twitter, J. me faz perceber que, mais que Monty Python, quem entende de Uniban é Chico Buarque:

- Joga pedra na Geni, joga bosta na Geni.

A pobre ex-caloura da Uniban tem até nome parecido: Geysi.

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(*) nem o Monty Python teria pensado em satirizar a Inglaterra medieval com uma atitude tão ineficaz

(**) mesmo deixando de lado o absurdo de que se defende a Uniban fazendo filminho no celular, note que curioso o uso da expressão ”ambiente escolar” em vez de “ambiente universitário”. Sutil mas revelador.

 


Mark Khaisman 's tape art

Quando fala o coração (Spellbound) visto por Khaisman

A criatividade sempre me atraiu. E quando bati os olhos neste trabalho de Mark Khaisman o centro de prazer associado ao reconhecimento da criatividade alheia se acendeu.

O quadro representa uma cena de um dos filmes menos conhecidos de Hitchcock, Spellbound (quando fala o coração). Achou bonito? Olhe de novo e perceba como o quadro foi feito: uma tela translúcida, iluminada por trás. As sombras que compõem o desenho são feitas com aquela fita adesiva grudenta (*) usada para fechar embalagens de papelão. O site de Khaisman tem vários outros trabalhos, alguns sobre cinema também – na galeria 3.

Mas voltando ao quadro: ele representa a cena em que a Dra. Constance (Ingrid Bergman), apaixonada pelo personagem de Gregory Peck, chega ao Empire State Hotel. Spellbound, como alguns outros filmes de Hitchcock, é simplesmente um filme de perseguição (manhunt) – mas aqui revestido de um contexto de psicanálise. Não falta o psicanalista com cara de doido e sotaque fortíssimo, quase um professor Ludovico; não faltam a amnésia nem a crença absoluta nas teorias de Freud, cartilha pela qual reza a novata Dra. Constance. E não poderia faltar uma sequência de sonho – que Hitchcock fez com a colaboração de Salvador Dali (**).

Como eu sei disso? Acredite: eu nunca tinha visto Spellbound. Vi na noite anterior à noite em que descobri o trabalho de Khaisman.

(*) não é pleonasmo, há fitas adesivas que de adesivas só têm a marca
(**) provavelmente o melhor motivo para ver o filme

 


Dia destes postei algo sobre o senso de humor dos nerds. A Lisa disse que gostou e ao responder a ela prometi que traria outras nerdices que surgissem.

E não é que segundos depois de responder a ela me deparei com uma revelação? Olhe só: um desenho que explica como um nerd vê um filme no cinema; mais que isso na verdade, pois o desenho representa vários filmes. Pronto, promessa cumprida:

Cinema (visto por um nerd)

Clique na figura para ver em tamanho ampliado e legível. Note que no desenho de Senhor dos Anéis o desenho indica até com quem está o anel. A horizontal representa o tempo e as linhas se aproximam quando os personagens se encontram.

O detalhe de sofisticação nerd + cult é a inclusão de Doze homens e uma sentença (12 angry men), a obra-prima de Sidney Lumet, que está entre os dez melhores filmes de todos os tempos no IMDb. Não confundir com o remake.


O que dizer de um filme que em pouco mais de uma hora te faz sair do cinema feliz? Pranzo di Ferragosto (Almoço em agosto) consegue um feito raro, se não inédito: um final feliz de verdade.

Explico. Muitos filmes (livros, novelas, etc) têm o que se convenciona chamar de final feliz: uma situação em que, sobre o fracasso no plano genial de um arqui-inimigo, sobre as lágrimas de uma rival amorosa derrotada, sobre um exército inimigo massacrado, ou sobre o cadáver de um vilão, um personagem – ou mais convencionalmente ainda um casal – aleatoriamente escolhido como protagonista termina o filme em uma situação favorável. Os contos de fadas são exemplos cruéis deste tipo de “final feliz”. [*]

Almoço em agosto, melhor filme em Veneza e Bratislava, consegue em seus rápidos 75 minutos fechar a estória com um final que é vantajoso para todos os personagens que aparecem na tela, inclusive a jovem e o pescador que aparecem por minutos na tela. Embalado por uma música que evoca os filmes italianos de outras épocas, o diretor ainda nos leva de carona por uma Roma que acorda vazia e preguiçosa no feriado. Uma das cenas evoca os filmes Caro Diario e A princesa e o plebeu (Roman Holiday), com a câmera seguindo a moto pelas vias romanas. O trailer abaixo dá um gostinho.

Gianni di Gregorio dirige o filme e interpreta Gianni, um homem de cabelos grisalhos que começa o filme no fundo do poço, sem renda, sem vida própria, tendo para si somente a companhia de uma mãe exigente e um monte de dívidas. Os dois diálogos iniciais (com a mãe e com o amigo Viking) retratam a vida medíocre e sem futuro em que Gianni se enredou. A chegada do feriado de Ferragosto, no entanto, precipita alguns acontecimentos imprevistos que mudam radicalmente a vida de Gianni.

Limito-me portanto à seguinte recomendação: permita-se o prazer de assistir.

Uma qualidade do filme é ser absolutamente italiano: as vielas de Roma, os bianchettos, a trilha sonora, as freiras fazendo turismo. A causa raiz que precipita as mudanças é universal, mas soa mais vera na Itália. E, acima de tudo, o roteiro usa o feriado mais italiano de todos, o Ferragosto.

Momento cultura inútil: o Ferragosto é um daqueles feriados – como o 24 de junho e o 25 de dezembro – que correspondiam a festas tradicionais desde a antiguidade e que foram “incorporados” pelos governos e religiões. Festejado em 15 de agosto, o Ferragosto celebrava o verão, o fim das colheitas – a hora de descansar. O imperador Augusto se apropriou do dia e criou as festas de Augusto [**]. A Igreja Cristã associa este dia à Assunção, um dogma que demorou quase dois milênios para ser reconhecido como tal pela Igreja [***].

O Ferragosto atual permite aos italianos um descanso no meio do verão, aproveitado para sair da cidade.

 [*] uma forma de exercitar a imaginação, especialmente com crianças, consiste em contar estórias e contos de fadas mudando o protagonista. Isso exige que se opte entre manter a estória chegando a um final lamentável (pobre velhinha, jogada sem motivo dentro do caldeirão por aquelas crianças anoréxicas malagradecidas) ou mudar a estória inventando algum evento cruel que elimine o ex-protagonista (o almirante Gancho recebendo suas condecorações depois que Peter cresceu, virou contador e largou de seu pé). 
[**] na verdade o imperador não se satisfez em tomar o dia para si, e acabou dando nome ao mês de Augusto = Agosto.
[***] o dogma da Assunção da Virgem foi definido em 1950, no documento Munificentissimus Deus. Eu, que li com atenção o artigo 47, não presumo a intentar a horrível ação nele definida.

Se você viu Em busca do cálice sagrado com o Monty Python provavelmente se lembra da cena em que eles chegam a Camelot e embarcam em um número musical absurdamente ridículo.

Algum nerd de cepa usou o diálogo e a música da cena com outros personagens que também habitam o coração dos nerds. Resultado: a Enterprise chega a Camelot.

A cena original é esta:

A letra da música é fantástica. Além de introduzir a expressão spam-a-lot (que virou o nome do show na Broadway), muitos versos têm as rimas em “able” – o que, além de exigir a pronúncia errada de algumas palavras, torna a canção “unsingable”.

E o fim do sketch é típico Monty Python – reconhecendo que a piada é estúpida.

 


Rapidinha

29Out09

O filme novo dos irmãos Coen, a serious man, já estreou lá fora. Eles continuam criativos: veja neste link o instrumento de percussão extremamente original usado no trailer.

Ainda bem que meus alunos nunca tiveram esta ideia.


409

28Out09

Não sei se você notou, mas o aniversário deste blog passou em branco. Nunca tive uma fixação com o número 12 (meses) nem com o número 365 (dias). [*]

Hoje o blog comemora 409 dias de existência, coincidentemente no dia do santo que engarrafa o Cosme Velho. Também não tenho fixação pelo 409, mas ele tem a vantagem de ser um número primo.

Fica desde já combinado que em 23/01/2013 [**] será feita uma comemoração especial.

[*] não tenho fixação por nenhum número, mas eu precisava de um artifício de texto
[**] neste dia o blog (se sobreviver até lá) completará 1597 dias [***]
[***] 1597 também é primo, e além disso é um número de Fibonacci.

Uma coisa interessante sobre esta vídeo-aula: aos 3 min 21 s do vídeo, se você parar de olhar a charmosa apresentadora, vai perceber que a partir do 144 todos os números estão errados. São erros grosseiros de adição, pode conferir. Por isso, o 1597 não aparece no filminho.


Vigarice?

25Out09

The Brothers Bloom, um filme curioso dirigido pelo desconhecido Rian Johnson, passa por aqui com o nome Vigaristas.

Vi este filme numa daquelas telinhas que as companhias aéreas fornecem para que os passageiros que, apesar do “imenso” conforto que suas poltronas proporcionam, não conseguem dormir direito. Não sei se você já parou para pensar, mas um dos critérios para escolher comédias que passam dentro de um avião é que elas não devem provocar gargalhadas – sob o risco de acordar os passageiros que conseguiram dormir. Sob este critério, Vigaristas foi uma boa escolha. Engraçadinho e curioso, nada mais que isso.

O filme tem seus atrativos, a começar pelo elenco. Adrien Brody, o Bloom, consegue dar exotismo na medida certa a seu personagem complicadinho. Rinko Kikuchi – que há poucos anos surpreendeu na pele da adolescente suicida de Babel – recebe um papel ainda mais exótico, e dá conta da encomenda. Rachel Weisz volta a fazer o papel de bonitinha para o qual ela tem um talento nato. E, no meio deles, nadando de braçada, o multiforme Mark Ruffalo compõe Stephen, o irmão mais velho de Bloom.

Outro atrativo é que boa parte da ação se passa em Praga, e a câmera não se faz de rogada, mostrando belíssimas cenas do castelo de Praga, da ponte Charles, das torres e igrejas, das vielas da cidade velha. Só este city tour já pagaria o ingresso.

Praga ao sol

Praga ao sol

Mais que isso, o filme começa muito bem, com uma cena didática que mostra como os irmãos Bloom se iniciaram na trambicagem. O uso de um fluxograma para explicar o golpe funciona muito bem, e o resultado final do golpe infantil dá uma boa abertura para o filme.

O problema de Vigaristas é que o filme parece não decolar na comédia, perdendo tempo demais para mostrar como os personagens são exóticos ou “interessantes”. Só para dar uma ideia, a promoção do filme ressalta que Rachel Weisz, que gosta de fazer cenas sem dublê, aprendeu as seguintes coisas para fazer o filme: tocar piano, violino, banjo e acordeon, dançar break, fazer malabarismo, lutar caratê, jogar ping-pong, andar de monociclo e de skate. Dá para entender? Ela faz um pouco de cada coisa no filme, diluindo o andamento da comédia. Um comentário: a divulgação não menciona se ela já sabia dirigir carros antes do filme.

Aliás, a divulgação diz que o filme presta uma homenagem a uma das comédias mais eficazes de todos os tempos, Dirty Rotten Scoundrels (Os Safados), em que Steve Martin e Michael Caine mostram o que acontece quando um vigarista britânico de alto nível se encontra com um americano. Há pontos em comum – mas certamente não é o número de gargalhadas.

Recomendação? Espere o DVD ou ajuste as expectativas antes de ir ao cinema.  E aproveite para ver, como na foto abaixo, o famoso castelo de Praga. Foto, aliás, em que tentei unir a terra do Golem à terra de Kafka – apesar de eu ser mais da época do Kundera.

O Castelo de Praga visto da ponte Charles. Em primeiro plano, um dos crucifixos mais peculiares do planeta, com a inscrição em ouro e em hebraico - longa e interessantíssima história.

O Castelo de Praga visto da ponte Charles. Em primeiro plano, um dos crucifixos mais peculiares do planeta, com a inscrição em ouro e em hebraico - longa e interessantíssima história.


[stuff] 6102

18Out09

Perdoem a perspectiva soturna, mas não tenho óculos cor-de-rosa e de vez em quando vejo coisas meio feias. Como a que relato agora.

Esta semana começou um movimento de disputa de espaço no submundo carioca - ônibus incendiados, policiais mortos, tiro pra todo lado, até helicóptero abatido. O governo corre para nos acalmar: é incidente isolado, vai ser reprimido, e assim por diante.

Já deu tempo suficiente para a análise Pollyanna das vantagens de trazer os Jogos Olímpicos de 2016 para o Rio: mais turistas, mais publicidade, mais oportunidades, mais dinheiro, mais infra-estrutura.  Nada contra, acho bacana ser otimista.

Mas que tal ser otimista sem ser ingênuo? Que tal tentar pensar como o submundo carioca vê os Jogos Olímpicos? Eu posso estar redondamente enganado, mas para mim o pessoal que vive de crime e comércio de drogas pode exergar 2016 como um evento que trará a seu território mais vítimas potenciais e mais clientes. Quem estiver bem posicionado vai descolar dólares e euros, seja vendendo coisas que não se vendem no supermercado, seja pedindo com jeitinho (em bom carioquês: “perdeu, mister!”). O que explica que, desde logo, aconteça uma disputa territorial para se posicionar bem na geografia dos morros da cidade.

Quem vê os Jogos na TV lembra dos saltos, dos recordes, da cerimônia de abertura. Mas para quem é “do ramo”, o potencial da vinda de tantos usuários de doping não deve passar em branco. Se esta perspectiva invertida de 2016 não for compreendida e os incidentes como o desta semana forem tratados como incidentes isolados causados por vândalos, há o risco de que a corrida por 2016 comece bem antes do que se previa.

Se você já jogou War, fica mais fácil explicar assim: é na hora em que você ainda não está olhando que teu inimigo tenta conquistar a Oceania. E aí você vai precisar de muita sorte para tirá-lo de lá.


Pipoca: alguns reais. Ingresso: outros tantos. Ver um filme do Tarantino: não tem preço. Inglorious Basterds (aqui chamado Bastardos Inglórios, sem o typo intencional do original) é um dos melhores filmes de Tarantino. Por vários motivos.

Primeiro: por ser surpreendente. Tão surpreendente que não dá para falar muito do filme sem estragar umas dez surpresas.

Segundo: por nos trazer de volta um gênero de filme que andava sumido, o faroeste. Não, você não leu errado. O filme, como diz a sinopse, se passa na França ocupada pelos alemães na Segunda Guerra. Mas o Enio Morricone, o ritmo e a estrutura são de um bom bang-bang. Até o título é copiado de um western spaghetti dos anos 70.

Já que falamos em faroeste, que tal ler o resto do post ao som desta música da trilha sonora de O Alamo?

Terceiro: é um filme com todas as marcas de Tarantino. Pés femininos descalços? Ele deu um jeito de encaixar no roteiro. Diretor aparecendo no filme? Sim, de forma meio imprevista. Erros intencionais? De montão, até a cor dos olhos de Hitler. Diálogos geniais? O filme é praticamente uma sequência de diálogos afiadíssimos. Trilha sonora? Surpreende e cativa desde a abertura. Tarantino quebrou a moda atual de filmes em que os alemães falam inglês: em Inglorious basterds fala-se inglês, francês, alemão e – deixa pra lá, uma outra língua que você vai descobrir. Uma coisa boa: a legendagem brasileira manteve o padrão da legendagem original que não traduz algumas palavras como merci e wunderbar.

Ao final do filme, a maior surpresa aparece no relógio. O meu marcava quase três horas a mais do que no início do filme, e confesso que não senti que tanto tempo tinha se passado.

O Alamo hoje em dia (San Antonio, TX)

O Alamo hoje em dia (San Antonio, TX)

Como disse, do filme não dá para falar muito. Mas dá pra falar de outra coisa: das excelentes interpretações que Tarantino arranca dos atores.

Começo com Christoph Waltz. Veterano de filmes alemães que não passaram por aqui, Waltz simplesmente rouba as cenas, compondo com perfeição o misterioso e imprevisível oficial Hans Landa. Se você quer uma única razão para ver o filme, a interpretação dele vale o ingresso. Mélanie Laurent também é pouco conhecida nestas bandas, e arrasa no papel da judia Shoshanna, que precisa se esconder dos invasores mas acaba se envolvendo mais do que imaginava. Outra atuação impecável é a de Daniel Brühl – este nosso velho conhecido de Goodbye Lenin (Adeus Lenin) e Die fette Jahre sind vorbei (Os educadores): seu galã Friederich Zoller, improvável pivô dos principais eventos do filme, é absolutamente convincente. O major Hellstrom dá alguns minutos de tempo na tela para que o excelente August Diehl – o Oskar de Os Falsários – mostre a que veio. Michael Fassbender também sai bem na foto com o tenente inglês.

Ah sim, se você olhar os cartazes nenhum destes cinco é o ator principal. Brad Pitt é quem ganha o título de protagonista – afinal é ele o líder dos Bastards. Eu sei, tem quem ache que ele é bom ator, tem quem julgue que ele é um canastrão. Vou evitar este assunto, mas destaco que neste filme Pitt faz o que faz melhor: sotaques esquisitos. Aldo Raine, seu personagem, tem um delicioso sotaque sulino quando fala inglês. E um sotaque mais interessante ainda quando mostra seus talentos bilíngues. E Brad Pitt mostra que, pelo menos neste aspecto, seu talento é indiscutível.

Assim como o uísque servido na taverna, cujo sabor foi apurado ao longo de 33 anos, Tarantino levou dez anos escrevendo este roteiro. Parafraseando o tenente Hicox: “I must say, damned good stuff, sir.”